O Examinador de Corações
Extraído do livro "Derrubando Gigantes"- Max Lucado
"Samuel?" O sacerdote escolhido de Deus. Sua mãe era Ana. Seu mentor era Eli. Foi chamado por Deus. Quando os filhos de Eli ficaram amargurados, Samuel deu um passo à frente. Quando Israel precisou de foco espiritual, Samuel o proveu. Quando Israel quis um rei, Samuel ungiu um... Saul.
O mesmo nome leva Samuel a gemer. Saul. O alto Saul. O forte Saul. Os israelitas queriam um rei, por isso temos um rei. Queriam um líder, por isso temos... um miserável. Samuel olha de um lado para o outro, com medo de que pudesse ter dito em voz alta o que pretendia apenas pensar.
Ninguém o ouve. Ele está seguro... tão seguro quanto se pode estar durante o reinado de um rei que se tornou um maníaco. O coração de Saul está ficando mais duro, seus olhos ainda mais perturbados. Ele não é o rei que costumava ser. Aos olhos de Deus, nem rei ele é mais. O Senhor diz para Samuel:
Até quando você irá se entristecer por causa de Saul? Eu o rejeitei como rei de Israel. Encha um chifre com óleo e vá a Belém; eu o enviarei a Jessé. Escolhi um de seus filhos para tornar-se rei (1 Samuel 16:1).
E assim Samuel segue o caminho para Belém. Sua barriga remexe e os pensamentos correm. É perigoso ungir um rei quando Israel já tem um. Contudo, é mais perigoso viver sem um líder nesses momentos explosivos.
A Belém da época de Samuel era parecida com Red Eye, Sawgrass ou Muleshoe: uma vila sossegada, esquecida pelo tempo, que ficava em uma montanha no sopé de outras mais altas a quase dez quilômetros ao sul de Jerusalém. Belém ficava cerca de 600 metros acima do Mediterrâneo, de onde se viam colinas suaves e verdes que aplainavam pastos desolados e irregulares. Rute conhecia essa aldeia. Jesus clamou pela primeira vez sob o céu de Belém.
Contudo, mil anos antes de nascer um bebê em uma manjedoura, Samuel entra na vila, puxando um novilho. Sua chegada faz com que os habitantes virem suas cabeças para vê-lo. Profetas não visitam Belém. Viera ele para castigar alguém ou se esconder em algum lugar? Nem uma coisa nem outra — assegura o profeta de ombros caídos. Ele viera para sacrificar o animal para Deus e convida os anciãos e Jessé e seus filhos para se juntarem a ele.
A cena lembra uma exibição de cachorros. Jessé exibe seus filhos um de cada vez, como cães com coleiras. Samuel examina-os de vários ângulos, pronto, por mais de uma vez, para dar-lhes a distinção máxima; mas, em cada uma delas, Deus o impede.
Eliabe, o mais velho, parece a escolha lógica. Imagine-o como o Casanova da vila: cabelos ondulados, maxilar saudável. Ele usa uma calça jeans apertada e tem um sorriso perfeito. Este é o cara, pensa Samuel.
"Errado", diz Deus.
Abinadabe entra como o segundo irmão e concorrente.Você acharia que quem havia acabado de entrar era um modelo de uma revista masculina. Terno italiano. Sapatos de couro de crocodilo. Cabelos negros, alisados para trás com brilhantina. Quer um rei estiloso? Abinadabe tem esse perfil.
O SENHOR não vê como o homem:
o homem vê a aparência,
mas o SENHOR vê o coração (1 Samuel 16:7).
Deus não está interessado em estilo. Samuel pede para que entre o terceiro irmão, Samá. Ele é estudioso, aplicado. Lucraria com um transplante de carisma, mas tem massa cinzenta sobrando. É formado pela Universidade Estadual e está de olho em um programa de pós-graduação no Egito. Jessé sussurra para Samuel: "Orador oficial da Escola de Belém".
Samuel fica impressionado, mas Deus não. Deus faz o sacerdote se lembrar: "O SENHOR não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o SENHOR vê o coração" (1 Samuel 16:7).
Sete filhos passam. Sete filhos fracassam. O desfile pára.
Samuel conta os irmãos: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.
— Jessé, você não tem oito filhos?
Uma pergunta semelhante fez a madrasta de Cinderela contorcer-se. Jessé provavelmente fez o mesmo. "Ainda tenho o caçula, mas ele está cuidando das ovelhas" (16:11).
O termo hebraico para "caçula" é haqqaton e indica mais do que idade; sugere posição. O haqqaton era mais do que o irmão caçula; era o irmãozinho — o tampinha, o hobbit, o "bêêê-bêêê".
Cabe ao haqqaton da família cuidar das ovelhas. Coloque o menino onde ele não possa causar problemas. Deixe-o com cabeças cheias de lã e céu aberto.
E é ali que encontramos Davi, no pasto com o rebanho. As Escrituras dedicam 66 capítulos à sua história, deixando-o, em número de referências, atrás somente de Jesus. O Novo Testamento menciona seu nome 59 vezes. Ele estabelecerá e habitará a cidade mais famosa do mundo, Jerusalém. O Filho de Deus será chamado o Filho de Davi. Os maiores salmos fluirão de sua pena. Iremos chamá-lo de rei, guerreiro, menestrel e matador de gigantes. Mas, hoje, ele nem está incluído na reunião familiar; é simplesmente uma criança esquecida e descredenciada, realizando uma tarefa doméstica em uma cidade que não passa de um ponto no mapa.
O que levou Deus a escolhê-lo? Queremos saber. Realmente queremos saber.
Afinal, andamos pelo pasto de Davi, o pasto da exclusão.
Estamos cansados do sistema superficial da sociedade, de sermos classificados de acordo com os centímetros de nossa cintura, os metros quadrados de nossa casa, a cor de nossa pele, o modelo de nosso carro, a marca de nossas roupas, o tamanho de nosso escritório, a presença de diplomas, a ausência de espinhas. Não estamos cansados desses joguinhos?
O trabalho duro é ignorado. A devoção não compensa. O chefe prefere a segmentação ao caráter. O professor escolhe alunos mimados em vez de alunos preparados. Os pais exibem seus filhos preferidos e deixam os nanicos lá fora no campo. Oh, o Golias da exclusão!
Você está cansado dele? Então é hora de parar de olhar para ele. Quem se importa com o que ele ou eles pensam? O que importa é o que o seu Criador pensa. "O SENHOR não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o SENHOR vê o coração" (16:7).
Essas palavras foram escritas para os haqqatons da sociedade, os que se sentem como peixes fora d'água, excluídos. Deus usa a todos eles.
Moisés fugiu da justiça, mas Deus o usou.
Jonas fugiu de Deus, mas Deus o usou.
Raabe dirigia um bordel, Sansão correu para os braços da mulher errada, Jacó correu em círculos, Elias correu para as montanhas, Sara perdeu a esperança, Ló andou com a multidão errada, mas Deus usou a todos eles.
E Davi? Deus viu um adolescente servindo-lhe lá no meio do mato, em Belém, entre o tédio e o anonimato, e, com a voz de um irmão, Deus chamou: "Davi! Entre. Alguém quer vê-lo". Os olhos humanos viram um adolescente magricelo entrar na casa, cheirando a ovelha e com a aparência de quem precisava de um banho. Contudo,"o SENHOR disse: 'É este! Levante-se e unja-o'" (16:12).
Deus viu o que ninguém viu: um coração que o buscava. Davi, apesar de todos os seus defeitos, buscava Deus assim como uma cotovia procura o nascer do sol. Ele buscava o coração de Deus, porque esperava no coração de Deus. No final, é tudo o que Deus queria ou precisava... quer ou precisa. Outras pessoas medem o tamanho de sua cintura ou de sua carteira. Deus não. Ele examina corações. Quando encontra um coração que está nele, Deus o chama e o reclama para si.
A história do jovem Davi dá-nos esta garantia: seu Pai conhece o seu coração e, por causa disso, ele tem um lugar reservado somente para você.
Max Lucado |